terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Pequena, pequena Maria


 Pequena, pequena Maria


Maria procurou por um psicólogo, ela precisava de ajuda para tomar uma decisão importante em sua vida. Pôs as cartas na mesa, e o profissional deu tudo de si para ajudar a paciente, usado seus conhecimentos. Porém, Maria saiu do consultório ainda confusa e sem uma decisão tomada.

Maria tem medo errar.
Ela não fala o que pensa, para não magoar as pessoas. Ela nunca reclama com seu chefe, com medo de perder o emprego. Ela não expões suas opiniões, porque tem medo de que as pessoas riem dela, caso esteja errada ou ninguém concorde com o que disse. Maria não escreve, porque não acha que os outros vão gostar do que vão ler. Maria não dança, porque não tem muita desenvoltura. Maria não vai a academia, porque tem vergonha de seu corpo. Maria não namora, porque não encontrou o homem ideal. Maria não gosta de novelas, porque se irrita com a caracterização do povo brasileiro. Maria não lê revistas de moda, porque nunca poderá comprar aquele vestido caro. Maria não canta em voz alta, nem no chuveiro, porque acha sua voz muito ruim. Maria não vai a praia, tem vergonha de que olhem para seu maiô retrô. Maria não lê livros, porque não gostou da sinopse.
Maria não pensa, tem medo de chegar a conclusão certa.

Milla Felácio

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

(1) Email de Protesto a caminho


 Em 1992 eu estava com oito anos de idade, estudava em uma escola pública, fazia a terceira série nessa época. Minha mãe trabalhava como empregada doméstica em casa de família. Eu morava em um barraco de madeira de um cômodo e banheiro, de frente para a Marginal do Rio Tiete, em São Paulo. Naquele ano, o presidente em vigor era Fernando Collor de Mello.
Esse foi um ano importante para a história política do nosso país. Mas parece que caiu no esquecimento do povo.

Hoje, 2013, recebi um e-mail sobre a petição Fora Renan. Não assinei a petição, e não sei porque recebi esse e-mail. Mas recebi, e também já excluí. Você pode achar babaquice porque eu não assinei, que eu não quero fazer minha parte. Eu faço minha parte. Como cidadã eu respeito as leis, pago impostos e voto. Leio, estudo e pesquiso o candidato antes de votar. Não conheço a validez que uma petição online pode ter, por isso, acho que precisa de mais esclarecimentos.
Mas voltando ao passado.
Fernando Collor foi eleito presidente em 1990, com críticas muito sérias sobre sua eleição. No decorrer do mandato, em 1992, seu irmão, Pedro Collor apresentou documentos como provas sobre a corrupção: enriquecimento ilícito, evasão de divisas e tráfico de influência.
O país parou para ver o desenrolar dessa novela. Minha mãe, que fez campanha para Collor anos atrás, ficou chocada e se sentiu culpada pelo o que fez. Mas ela era uma em um milhão.
A partir de então, com as acusações tomando conhecimento do povo, foi organizado um fórum contra o atual presidente, pedindo seu afastamento do poder.
Foram feitas manifestações com o pedido de “Fora Collor” sendo gritado nas ruas, e os rostos dos manifestantes pintados de verde e amarelo. Bandeiras do Brasil espalhadas pela cidade. Nas escolas, as professoras explicavam aos alunos o que tudo aquilo significava e porque a manifestação popular era importante.

Eu me recordo da professora pedir para pintar a bandeira do país e escrever nossos sonhos no lugar das estrelas. Não me lembro o que escrevi, mas quando estávamos na sala de aula, falando sobre nosso país, querendo ajudar de alguma forma, era como se uma força interior nos deixasse em alerta. Todo mundo se sentia especial por fazer parte daquilo.
Em casa, eu sentia a mudança também. Meus desenhos eram colados na parede do barraco por minha mãe. Alguns amigos dela participavam das manifestações. Eu era muito nova, mas compreendia perfeitamente o que acontecia. Fui instruída por minha mãe a pensar com a minha própria cabeça. E entre um desenho do pica-pau e outro dos Ursinhos carinhosos, as informações sobre os protesto, não somente em São Paulo mas também em outras cidades, tomavam parte da televisão. E minha infância era bombardeada com política. Eu poderia ignorar, mas não podia.
O pedido de impeachment foi entregue a Câmara no dia primeiro de setembro de 1992.


O Vale do Anhangabaú, em São Paulo, foi palco da celebração quando os votos foram contados, e Collor estava mesmo fora.
As pessoas passam por ali todos os dias, mas quando eu passo por lá, consigo me lembrar do barulho dos protestos, bandeiras, um aglomerado de pessoas explodindo. Só fui ver isso novamente, quando o Brasil ganhou a Copa em 1994. Situações bem diferentes.

Estamos aqui em 2013, a era da comunicação rápida. Protestos pipocando do sofá de casa. Pessoas namorando pela webcam, fotos na frente do espelho sendo compartilhadas e curtidas. Pessoas criando petição na internet. Alguém postando em blog sua indignação, e outros o achando mais otário ainda.
O Brasil já se mostrou muito capaz de lutar por seus direitos, e o cumprimentos dos deveres políticos. Mas a internet nos deixou burros? Moles? Preguiçosos? Ou apenas nos contentamos com os acontecimentos atuais? E se nossa voz no facebook não for tão curtida e compartilhada, a gente tenta outra hora.
Eu sei que, para ser ouvido, é necessário gritar. Gritar alto para todo mundo ouvir. Digitar, talvez não seja a melhor saída. Deixar o aconchego de sua casa, para a realidade, pode ser a alternativa que faltava. E quando isso acontecer, eu também irei participar e assim, já com idade suficiente, poderei pintar minha cara como fizeram pessoas que me orgulho muito, há vinte anos atrás.