terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

(1) Email de Protesto a caminho


 Em 1992 eu estava com oito anos de idade, estudava em uma escola pública, fazia a terceira série nessa época. Minha mãe trabalhava como empregada doméstica em casa de família. Eu morava em um barraco de madeira de um cômodo e banheiro, de frente para a Marginal do Rio Tiete, em São Paulo. Naquele ano, o presidente em vigor era Fernando Collor de Mello.
Esse foi um ano importante para a história política do nosso país. Mas parece que caiu no esquecimento do povo.

Hoje, 2013, recebi um e-mail sobre a petição Fora Renan. Não assinei a petição, e não sei porque recebi esse e-mail. Mas recebi, e também já excluí. Você pode achar babaquice porque eu não assinei, que eu não quero fazer minha parte. Eu faço minha parte. Como cidadã eu respeito as leis, pago impostos e voto. Leio, estudo e pesquiso o candidato antes de votar. Não conheço a validez que uma petição online pode ter, por isso, acho que precisa de mais esclarecimentos.
Mas voltando ao passado.
Fernando Collor foi eleito presidente em 1990, com críticas muito sérias sobre sua eleição. No decorrer do mandato, em 1992, seu irmão, Pedro Collor apresentou documentos como provas sobre a corrupção: enriquecimento ilícito, evasão de divisas e tráfico de influência.
O país parou para ver o desenrolar dessa novela. Minha mãe, que fez campanha para Collor anos atrás, ficou chocada e se sentiu culpada pelo o que fez. Mas ela era uma em um milhão.
A partir de então, com as acusações tomando conhecimento do povo, foi organizado um fórum contra o atual presidente, pedindo seu afastamento do poder.
Foram feitas manifestações com o pedido de “Fora Collor” sendo gritado nas ruas, e os rostos dos manifestantes pintados de verde e amarelo. Bandeiras do Brasil espalhadas pela cidade. Nas escolas, as professoras explicavam aos alunos o que tudo aquilo significava e porque a manifestação popular era importante.

Eu me recordo da professora pedir para pintar a bandeira do país e escrever nossos sonhos no lugar das estrelas. Não me lembro o que escrevi, mas quando estávamos na sala de aula, falando sobre nosso país, querendo ajudar de alguma forma, era como se uma força interior nos deixasse em alerta. Todo mundo se sentia especial por fazer parte daquilo.
Em casa, eu sentia a mudança também. Meus desenhos eram colados na parede do barraco por minha mãe. Alguns amigos dela participavam das manifestações. Eu era muito nova, mas compreendia perfeitamente o que acontecia. Fui instruída por minha mãe a pensar com a minha própria cabeça. E entre um desenho do pica-pau e outro dos Ursinhos carinhosos, as informações sobre os protesto, não somente em São Paulo mas também em outras cidades, tomavam parte da televisão. E minha infância era bombardeada com política. Eu poderia ignorar, mas não podia.
O pedido de impeachment foi entregue a Câmara no dia primeiro de setembro de 1992.


O Vale do Anhangabaú, em São Paulo, foi palco da celebração quando os votos foram contados, e Collor estava mesmo fora.
As pessoas passam por ali todos os dias, mas quando eu passo por lá, consigo me lembrar do barulho dos protestos, bandeiras, um aglomerado de pessoas explodindo. Só fui ver isso novamente, quando o Brasil ganhou a Copa em 1994. Situações bem diferentes.

Estamos aqui em 2013, a era da comunicação rápida. Protestos pipocando do sofá de casa. Pessoas namorando pela webcam, fotos na frente do espelho sendo compartilhadas e curtidas. Pessoas criando petição na internet. Alguém postando em blog sua indignação, e outros o achando mais otário ainda.
O Brasil já se mostrou muito capaz de lutar por seus direitos, e o cumprimentos dos deveres políticos. Mas a internet nos deixou burros? Moles? Preguiçosos? Ou apenas nos contentamos com os acontecimentos atuais? E se nossa voz no facebook não for tão curtida e compartilhada, a gente tenta outra hora.
Eu sei que, para ser ouvido, é necessário gritar. Gritar alto para todo mundo ouvir. Digitar, talvez não seja a melhor saída. Deixar o aconchego de sua casa, para a realidade, pode ser a alternativa que faltava. E quando isso acontecer, eu também irei participar e assim, já com idade suficiente, poderei pintar minha cara como fizeram pessoas que me orgulho muito, há vinte anos atrás.

2 comentários:

  1. Eu nem era nascida nessa época, mas os acontecimentos me chegaram aos depois na escola. Pena que tudo resumido, como os conteúdos geralmente são. É tão diferente ouvir (no caso, ler) algo sobre isso de quem esteve nele ou perto dele. Realmente sinto falta dessa iniciativa. Não sei o que aconteceu, se a internet influenciou ou não, ou quanto, caso tenha influenciado. Mas todo mundo está preguiçoso mesmo. É mais fácil copiar um trabalho acadêmico inteiro do que fazê-lo (na minha turma, duas já foram reprovadas por isso0. É mais fácil postar algo e pedir compartilhadas (o chamado "compartilhe se vc quer que X aconteça"). E é mais fácil protestar com um clique do que tirar a bunda gorda da cadeira e ir lutar pelos direitos lá fora. Outra coisa: hoje em dia, com a danadinha da internet, conhecer a vida pregressa do candidato escolhido é simples. Mas ao invés de investigar e aprender a votar, o pessoal acha melhor tomar atitude (seja ela útil ou não). Eu diria que somos a nação do "prevenir dá trabalho, se acontecer a gente remedia depois".
    Um ótimo post, Milla. Pena que talvez não chegue a quem deveria lê-lo.

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  2. Me recordo um pouco desta época, lembro-me vagamente que Collor pediu para que o povo fosse de verde e amarelo pra apoiá-lo e o que aconteceu?
    Um monte de gente vestido de preto em protesto a ele!

    Citei no meu blog estes dias atrás o seguinte trecho: "Há uns 10 ou 20 anos atrás a juventude pintava a cara e saia nas ruas em busca de seus direitos... hoje em dia lutam apenas por um gole de cachaça pra amenizar os problemas!

    Afinal, parece não se ter mais nada pra lutar neste mundo!"

    Rey Ferreira

    Bjos... belo Post Milla!

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Sabe porque a galinha atravessou a rua?
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